Eu e meus primos...

Eu e meus primos...

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

De machado na mão

Aos amigos que restarem, fiquem tranquilos.
Estou em paz. 
O custo da minha paz é fazer a guerra, 
é compartilhar meu desespero, 
minha incredulidade, 
minha revolta com esse mundo que os caretas construíram. 

Xangô morre agachado não, 
Xangô morre é de machado na mão.

É tudo por amor

Seu eu guerreio, é por amor, 
se fosse por ódio, 
eu deixava pra lá... 
apertava o famoso botão do Ph...

As três mortes de Marcos Alvito



Morte 1: a morte do pesquisador, do especialista, do acadêmico
- Os cinco rapazes foram encostados no muro e executados com tiros na cabeça. Os miolos escorreram pelo chão. O sangue dos cinco formou uma poça. A senhora da casa em frente ainda tentava limpar a mancha vermelha quando fui lá no dia seguinte. Vi com meus olhos...
- (Profa.Dra. 01) Infelizmente estas coisas costumam acontecer nestes lugares
- (Profa.Dra. 02) Quando é mesmo a defesa daquela sua aluna...
Morte 2: a morte do professor
- O cartão do Santander é esse professor, já vem com o número da conta e tudo. É só você ativar. Com ele você vai no bandejão, com ele você pega livro na biblioteca, com ele você coloca crédito para pagar o ônibus...
Morte 3: do ser humano
- Por enquanto ainda não aconteceu. Pode ser hoje, pode ser a qualquer hora, qualquer dia. Por enquanto, ele está vivo. Quando você estiver lendo isso, ele pode já estar morto 

A última aula

Aula terminada. O velho mestre recolhe suas coisas e sua solidão. No ônibus, encontra uma aluna e sofre o gesto inesperado: uma mão estende ajuda. Na barca, a verdadeira aula começa e o velho mestre, finalmente, aprende. Ela lhe apresenta a universidade em que ele trabalha há 30 anos.

Onde a carteirinha de estudante foi substituída por um cartão bancário. É com este abre-te-sésamo que você come a ração do bandejão, ou pega os poucos livros que existem na biblioteca. O banco já te dá um número. O banco já recebe o teu email.

O professor se cala.

O professor morreu, agora só processa a dor.

A universidade acabou.

O último a sair, por favor devolva a chave da sua cela à administração.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Homenagem a Nicolau Sevcenko

História extraordinária, sem numeração:

Foi para o segundo andar Nicolau Sevcenko, na minha modesta opinião um dos maiores historiadores que o Brasil já teve.
Eu poderia admirá-lo por suas obras magníficas, sempre muito bem escritas, com rigor e sabor. Mas eu o admiro mesmo, de verdade, por conta de uma história sua que presenciei.

Meu primo era estudante de História e tinha ido a um Congresso da ANPUH na acolhedora João Pessoa, no início da década de 80. O auditório estava cheio, todos esperando com ansiedade o palestrante, um ilustre professor, de quem diziam maravilhas. Eis que chega um jovem (tinha só 29 anos) com os cabelos desgrenhados (nessa época todo mundo tinha muito cabelo) roupas bem informais e uma enorme mochila, daquelas de hippie. Vai até o microfone, tira a pesada mochila das costas, passa a mão nos cabelos como se fosse possível ajeitá-los... e começa:

- Boa noite, meu nome é Nicolau Sevcenko...

Ele estivera viajando até o último minuto antes de se trancafiar na sala com aquele bando de doidos que queriam estudar História...

O grande Sevcenko já sabia que afora o motorista e o trocador, é todo mundo passageiro...

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Dois dedos, algumas costelas e muitas alegrias

O impacto foi tremendo, à altura das costelas. E lá estava meu primo, não estendido no chão, porque o jogo era na areia da praia, mas se contorcendo de dor e com a sensação de que não conseguia respirar. E não conseguia mesmo. A pancada fora tão forte que as costelas haviam comprimido os pulmões e durante intermináveis segundos o ar não entrava. Pensou em gritar por socorro, mas sem ar não há voz... Foi salvo do ridículo pois alguns segundos depois estava tudo normal. Quer dizer, afora aquela dor nas costelas. Teve que dormir de um lado só por uns três meses...

Já tive muito primo maluco (quase todos), mas nenhum como aquele que começou a jogar rugby aos 44 anos. Foi assim: meu primo começou a estudar a história do futebol. Aí descobriu que ele e o rugby eram primos, digamos assim, para simplificar muito. Bem, então é claro que meu primo foi pesquisar o rugby e descobriu uma história fascinante de um esporte que quis se manter amador (mesmo de mentirinha) até 1995. Procurou mais um pouco e descobriu que havia um time de rugby no Rio, o Rio Rugby. Começou a frequentar jogos e começou a ser convidado a participar. Mas nem passava pela sua cabeça fazer isso: magrelo, ossudo, lento e com um motorzinho 4.4 decente, mas que já tinha visto melhores dias, meu primo achava uma temeridade começar jogar um esporte "de contato", para ser delicado.

E era uma temeridade mesmo. Mas não conseguiu resistir ao rugby, principalmente depois que apareceu na UFF, querendo montar uma equipe universitária, um tal  de Juan Manuel Pardal. Juan era um jogador argentino radicado em Niterói, casado com uma brasileira e um líder nato. Juntos, sob a liderança técnica, tática e humana de Juan, fundaram a UFF Rubgy. Por falta de jogadores, meu primo teve que entrar em campo. Jogar era muito bacana, mas o legal mesmo era ver um time se formando aos poucos, sem motivação econômica, só por amor ao jogo. Viramos todos amigos, quase irmãos, o que é característico do rugby, um esporte onde o coletivo é muito mais importante do que o individual.

Depois daquela pancada nas costelas, todavia, que já fora precedida de dois dedos quebrados, meu primo resolveu tirar o seu motor àquela altura já 4.5 de campo.

Mas é uma daquelas coisas da sua vida que faria de novo mil vezes.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Uma ou duas coisas que sei sobre ela

Denise, minha irmã mais velha , que morreu de leucemia aos sete anos de idade. Meu primo tinha seis anos. Enquanto Denise agonizava lentamente sofrendo com uma doença à época incurável, ele foi mandado para a casa do tio e dos primos mais velhos. Claro que aprontou. Quando viu seu primo mais velho sair com uma toalha enrolada na cabeça após o banho, o pequeno Marcos se pôs a fazer o mesmo. Só esqueceu que o primo tinha uma segunda toalha amarrada à cintura.

Brincadeiras à parte, o choque foi tão grande que os pais optaram pelo silêncio absoluto. E meu primo acabou aos poucos apagando sua irmã mais velha da memória. Sabe que ela tinha lindos cabelos de cachos grandes, olhos vivos e a pele mais morena do pai. Que adorava ir à escola e detestava chegar atrasada. Soube depois pelo primo Cristóvão (um primo de verdade) que Marcos e Denise eram os melhores amigos, inseparáveis, não brigavam nunca. Transferiu o amor e o entendimento perfeito para a caçulinha, a Nanda. Agora só tem fotos amareladas de Denise vestida de baiana, com turbante na cabeça. E uma melancolia presa na garganta.